PASSE-PARTOUT OU PASSPARTOUT?

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Botão em Curso PASSE-PARTOUT OU PASSPARTOUT?

Mensagem por MARTÍN em Dom 22 Nov 2015, 09:37

“Passe-partout”

Em algumas situações na criação de nossas aves, nos deparamos com termos que são de difícil compreensão. O termo “passe-partout” que é utilizado há longa data na canaricultura, e que mais recentemente vem sendo usado por criadores de tarins (Carduelis cuculatus) e outras espécies, possui origem francesa, e esta é a forma correta de escrevê-lo.  Não existe uma tradução literal em português sobre seu significado que se adeque perfeitamente à ornitologia. De forma diferente, porém, o termo não é difundido na criação de psitacídeos, embora em algumas situações também possa ser empregado, como no caso dos “lace-wings” (canela-ino) dos psitacídeos.

Após pesquisas em diversos dicionários e livros gramaticais, verifica-se que o termo passe-partout pode ser usado em diversas situações, com diferentes significados. Dentre os significados mais comuns e frequentes, vemos:

Passe-partout = chave mestra; aquilo que se adéqua a qualquer situação; aquilo que agrada à todos; passaporte. Pode até mesmo indicar um tipo de moldura para quadros e retratos.

Em inglês, existe uma definição interessante : “All purpose”  - que seria algo como aquilo que serve a qualquer propósito.

Temos ainda outra possibilidade, se separarmos os termos que compõe esta palavra, onde teremos:
Passer = (verbo) passar, transportar
Par = para
Tous = todos, ambos

Acredita-se que, na inexistência de uma palavra ou um conceito em português que possa expressar seu significado dentro da canaricultura e ornitologia, este termo “passe-partout” tenha sido “importado” de algum livro ou artigo em Francês, e justamente pela dificuldade em traduzí-lo, se manteve até os dias atuais na canaricultura e ornitologia. Agora, entra aí o mais importante: qual o conceito envolvido no termo “passe-partout”?

Inicialmente, na canaricultura, o termo “passe-partout” foi utilizado para descrever a combinação genética que originava os canários Isabelinos. Como sabemos o canário isabelino não é fruto de uma mutação, e sim da transferência da diluição do canário ágata para os canários que possuíam as melaninas marrons, ou seja, os canelas. A grosso modo, o Isabelino seria um canário que ao mesmo tempo possui as mutações ágata e canela.

Ambas as mutações citadas acima surgiram em ocasiões distintas a partir do canário ancestral (verde) e possuem herança genética sexo-ligada de caráter recessivo, isto é, os genes mutantes que determinam a aparição do fator ágata e do fator canela estão localizados nos cromossomos sexuais dos canários.

No início da canaricultura, entretanto, todos os machos ágatas não possuíam em seu patrimônio genético o alelo mutante canela; já os canelas, não possuíam em seu patrimônio genético o alelo mutante ágata.

Ressaltamos que o fator ágata causa diluição e redução da área de atuação da eumelanina negra, gerando bastões (estrias ou desenho dorsal) estreitos e bem marcados, assim como uma forte redução da eumelanina negra dispersa na plumagem (envoltura). Já o fator canela é ocasionado por uma alteração estrutural dos grânulos e eumelanina negra, que substituem a cor negra e passam a possuir cor marrom-escura (canela).

Através do cruzamento inicial entre canários ágatas e canelas, teríamos conforme o esquema abaixo:

                           Macho Ágata         X Fêmea Canela
Representação (Z) Diluição Ágata; Melanina Negra    X   (Z)Ausência Diluição; Melanina Canela
   Genética (Z) Diluição Ágata; Melanina Negra    X (W)*

*: Vale lembrar que nas aves, o macho é o sexo homogamético, e a fêmea é o sexo heterogamtético. A correta nomenclatura para os cromossomos sexuais das aves é o sistema Z/W. Assim, nas aves a fêmea possui os cromossomos sexuais ZW e o macho os cromossomos homólogos ZZ. Assim sendo, os gametas (Z ou W) produzidos pela fêmea são determinadores do sexo dos descendentes (é o óvulo que determina o sexo da descendência). Situação inversa ocorre no sistema XY onde o gameta masculino (X ou Y) determinará o sexo dos descendentes ao ser combinado ao gameta da fêmea, que sempre será X.

Nesta situação, o macho ágata produziria 100% de seus gametas (Z) Diluição Ágata; Melanina Negra, enquanto a fêmea  canela produziria 50% de gametas (óvulos) (Z)Ausência Diluição; Melanina Canela que originariam filhotes machos ou 50% de gametas (W) que originariam filhotes fêmeas.
Estes óvulos (Z) Ausência Diluição; Melanina Canela que ao serem fecundados pelo gameta do macho Ágata (Z) Diluição Ágata; Melanina Negra nos dariam filhotes machos de coloração verde, portadores de canela e ágata, com a seguinte carga genética:

Filhotes Machos: (Z) Ausência Diluição; Melanina Canela
(Z) Diluição Ágata; Melanina Negra


Teríamos também filhotes fêmeas ágatas resultantes deste cruzamento conforme podemos ver abaixo:

Filhotes Fêmeas: (Z) Diluição Ágata; Melanina Negra
(W) - determinador do sexo do filhote

Estes filhotes machos, verdes portadores de ágata e portadores de canela, poderiam então, inicialmente, produzir os seguintes gametas:

Gametas possíveis: 50% gametas (Z) Ausência Diluição; Melanina Canela
50% gametas (Z) Diluição Ágata; Melanina Negra

Notem que, desta forma, se acasalarmos estes machos verdes portadores de canela e ágata, seja com fêmeas ágatas, canelas ou verdes, sempre teríamos os dois fatores  (Ágata e Canela) isolados um em cada gameta,pois estão localizados separadamente um fator em cada cromossomo sexual. Então, de onde vieram os Isabelinos?

Quando temos duas mutações em diferentes genes localizados em cromossomos homólogos, neste caso nos cromossomos sexuais, somente é possível que ambas aconteçam, em um mesmo cromossomo se houver a “RECOMBINAÇÃO GÊNICA”, também chamada de “Linkage” ou “crossing over”.  A recombinação gênica se dá durante o processo de formação dos gametas, onde os dois cromossomos sexuais se emparelham e “trocam pequenos pedaços correspondentes”, recombinando-se então a sequência genética original existente, e possibilitando assim uma maior variabilidade genética nos filhotes.

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Durante o processo de Crossing over, há uma “troca de pedaços correspondentes” entre cromossomos homólogos, neste caso, entre os cromossomos sexuais do macho. No caso dos Isabelinos, ocorre uma “troca’ que permite que exista, em um mesmo cromossomo os alelos mutantes do fator ágata e do canela.


Após a Recombinação, teríamos os gametas abaixo, onde podemos ver que :
Gametas após recombinação: (Z) Ausência Diluição; Melanina Negra (verde)
(Z) Diluição Ágata; Melanina Canela (ISABELINO)

Somente por conta deste mecanismo de recombinação é que existiu a possibilidade do surgimento dos canários Isabelinos. Vale lembrar que, após a recombinação dos fatores Ágata e Canela resultando na cor Isabelino, a possibilidade de que ocorra um novo crossing-over em um canário macho Isabelino durante a formação dos gametas é a mesma do que a probabilidade que ocorra o crossing-over no canário verde portador de ágata e canela citado acima.  Portanto, um canário macho Isabelino ao ser cruzado com uma canária verde, poderá ter filhotes fêmeas Isabelinas, ágatas ou canelas dependendo da taxa de recombinação gênica, e os machos serão verdes portadores de isabelino, ou somente de ágata ou canela.

A frequência e probabilidade de que se aconteça a recombinação gênica dependerá da distância entre os dois genes envolvidos. Em periquitos australianos, por exemplo, a combinação da mutação INO com a mutação Canela gera aves conhecidas como “lace-wings” (Canelas-ino), que seriam aves praticamente ausentes em melanina, porém com uma leve marcação canela na borda das penas, dando um aspecto laceado às penas, especialmente nas asas – neste caso, a taxa de recombinação gênica, ou seja, a probabilidade que isso ocorra, é de cerca de 3%, por conta da “proximidade” dos dois genes envolvidos.

Em síntese, concluí-se que o termo “passe-partout” clássico indica uma ave (macho) que em sua carga genética seja portador de duas mutações sexo-ligadas, que pode originar descendentes das duas cores que ele é portador, além de uma terceira cor, que se origina a partir da recombinação gênica (crossing-over). Seria uma ave portadora para ambas as cores.

Autor: César G. C. Wenceslau
Médico Veterinário, Criador de canários e Psitacídeos, Juiz OBJO/FOB de canários de porte.

Leitura Recomendada:
Os Canários de Cor – Genética aplicada às Mutações. 2004. José Luis de Castro e Silva. Copygraph.


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